Às Claras


31/01/2009


O Pacto de Parati

 

Parati, 1º de janeiro de 2009. Uma gaivota faz um ângulo brusco e mergulha no mar: pressentiu o peixe. De onde estou não consigo ver se o pegou ou não. Não importa. Fez seu ofício de gaivota, como diz Camus.

As gaivotas são felizes? Sabem que são felizes? São felizes o tempo todo ou só em momentos como esse, de saciedade vislumbrada? Um pássaro na gaiola é um bom exemplo de infelicidade, sendo uma natureza contrariada. Mas um pássaro em vôo é a garantia de que?

Quando Noé soltou a pomba e ela não voltou à arca, foi o sinal que a normalidade havia voltado ao mundo. Picasso transformou isso no símbolo da paz, não da felicidade. Paz é o direito a uma vida sem surpresas. Uma vida sem surpresas nunca é vista como feliz. A felicidade só se reconhece na expectativa e na lembrança.

Na virada do ano há uma avidez pelo instante fugaz de felicidade, que escorrega das mãos como um peixe. Acumulam-se armadilhas tradicionais, como contagens regressivas em uníssono, para fogos de artifício riscando o céu a fogo como cometas domesticados. Na Áustria, joga-se chumbo quente no copo d’água, e o acaso plasmado vira talismã. Há o mesmo ritual nas fotos de ano novo: é preciso sorrir no presente para que no futuro o instante fixado vire nostálgica prova de que fui feliz. A felicidade, assim, é uma pipa no ar: fisgada do distante a ser controlado no vento aleatório.

Mas que sujeito chato sou eu, que vê a busca da felicidade no lugar do seu fruir espontâneo, e que só o encontra em fotos não posadas, como se fosse impossível ser feliz e saber que se é feliz. É primeiro do ano, dia da paz universal, e constranjo e inquieto os amigos com minha melancolia.

Caros amigos, peço perdão pelo isolamento, e garanto que ele não é ostentação hostil da minha inadequação ao esforço coletivo em ser feliz (penso mesmo que a melancolia é justamente a forma mais refinada da felicidade). Honra-me ter começado esse ano merecendo o amor paciente da Tatiana, e compartilhando o presente espontâneo de Ivam, Rodolfo, Phedra, Cléo, Penna, João, Érika, Beto, e dias depois Natália, Carla, Thales, e todo o grupo Armazém.

É que, nos últimos oito anos, no exercício da crítica, responsável por fixar momentos de risco e exposição dos palcos, recebi risos posados e caretas demais, meio adulado, meio menosprezado, e me habituei a me refugiar por trás de meus olhos, como se eu fosse invisível.

Porém, a partir deste ano, estou livre. Já que o que escrevo agora não é mais editado e vendido impresso, não represento mais nada além do meu nome: sou uma testemunha a mais. Continuo porém por teimosia e vício a compartilhar o que vejo, agora despreocupado de qualquer valor de mercado. Saio da moita e surjo às claras. Por amor às epifanias instantâneas, esse peixe esperado que nos mantém no ar e na vida, tentarei ser mais visível. E, quem sabe, feliz.

Aproveito assim que não acabou ainda janeiro para fazer um pacto com a felicidade. Passo a considerá-la não como uma sorte que se merece distraído, mas como uma criação pessoal e cotidiana, delicada (e por isso tendo que ser bem tratada), que se compartilha com os amigos como um vinho. Como a vida.    

 

PS: Este texto foi enviado pelo Sérgio, de Cuba, hoje, para o meu email. Ele pediu que eu publicasse. Está aí...! Tatiana

Escrito por Sérgio Salvia Coelho às 19h01
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