Às Claras


31/03/2009


Andei parado: cansei de mim como personagem. Mas não entrei em depressão, não: coelhos não se extinguem assim tão rápido. Estou ensaiando com uma boa perpectiva para dia 15.

 

Enquanto não dou o ar da minha graça, assuntos mais urgentes. O Larte Késsimos me repassou este brilhante texto da Daniela Carmona, bufã dos pampas, sobre o nosso ponto zero infestado de urubus. E aí, Ivam? Como fica?

Carta a qualquer um que se interesse, de fato, por políticas públicas (ou ausência destas) na área cultural.
 
SALVAR A CULTURA OU SALVAR O CULTURA?
 
Antes de tecer qualquer consideração, tomo a iniciativa individual que, espero, inspire demais cidadãos (pois não posso apenas me reportar à classe artística, já que a exclusão é da sociedade civil no geral...) a fazê-la coletiva. Transcrevo abaixo, palavra por palavra, grifo por grifo, nota da coluna “Direto da Fonte”, de Sonia Racy, do Caderno 2 do Estado de São Paulo, de sexta feira, dia 20 de março de 2009:
 
O novo TCA, na nova Roosevelt
 
Sete meses depois do incêndio, o Teatro Cultura Artística dá a volta por cima. Em jantar na casa de Gilberto Kassab, anteontem, empresários e banqueiros, além de lideranças culturais, assistiram a vídeo inédito de sete minutos mostrando o novo projeto da Sociedade de Cultura Artística para o TCA.
 
A idéia é criar o Centro de Cultura Artística, com uma área de construção cinco vezes maior. E transformar aquele pedaço da praça Roosevelt em área nobre, padrão rua Avanhandava, ali do lado. O custo disso tudo? Na primeira fase do projeto, R$ 40 milhões. Na segunda, R$ 30 milhões.
 
Entre os pesos-pesados presentes, Henrique Meirelles, Luciano Coutinho, Aloisio Faria (Odebrecht), Caco Pires (Camargo Corrêa), David Feffer (Suzano), Zeco Auriemo (JHSF), André Esteves (BTG), Rubens Ometto (Cosan), Ricardo Steinbruch (Vicunha). Pelos artistas, Karen Rodrigues.
 
O novo TCA...2
 
No encontro, o vice-presidente da Sociedade, Cláudio Sonder, detalhou como ajudar. Haverá cotas platinum, brilhante e ouro, de R$ 3 milhões a R$ 500 mil. Antonio Quintella, do Credit Suisse, avisou já ter destinado, via Lei Rouanet, R$ 2 milhões para preservar o mural da frente, de Di Cavalcanti, não atingido pelo fogo.
 
Carlos Jereissati assegurou que doará R$ 3 milhões. Luciano Coutinho prometeu ver como o BNDES poderá ajudar. E Roberto Baumgarten avaliava o que poderia dar a mais – ele doou o segundo Steinway ao TCA.
 
Todos elogiaram a idéia, mas alguns comentavam ser esta a “fase do atacado”. E que vão esperar “a do varejo”.
 
O novo TCA...3
 
Ao justificar sua adesão, o prefeito – que cedeu sua própria casa para o encontro – disse ter-se emocionado quando foi ver os restos do incêndio, em agosto.
 
E viu os artistas chorando.
 
 
Impressionante. Quando achávamos que a crise estava engolindo todos os investimentos nas áreas culturais via leis de Incentivo, com as empresas cancelando editais de patrocínio, reduzindo drasticamente sua verba para a Cultura, como noticiado pelo mesmo Caderno 2 há duas semanas, eis que, solenemente, elas resurgem das cinzas com a boa nova: estão dispostas a doar um mínimo de 500 mil  e um máximo de 3 milhões de reais para salvar esse ícone cultural, o Teatro Cultura Artística, teatro sabidamente freqüentado por uma parcela significativa da população (uns 5%?), que podia ter acesso aos preços digamos, pouco populares. Que para reerguer-se, pretende captar 70 milhões de reais junto ao empresariado brasileiro. Fácil assim.
 
Impressionante a sensibilidade do empresariado brasileiro. Que deve ter revisto suas contas e visto que a crise talvez não seja tão grave assim, e que poderá com gesto tão nobre revitalizar uma área que... bom, pra qualquer cidadão medianamente bem informado, que já está sendo revitalizada há anos pelos grupos teatrais que têm sede na praça Roosevelt (Satyros, Parlapatões, a Cia. Da Revista, Teatro 184, Teatro dos Atores...) e pelo cada vez mais numeroso público que a freqüenta, sem contar com um tostão sequer deste tão sensibilizado empresariado brasileiro, tampouco com o comovido poder público, que promete uma reforma na referida praça há mais de duas gestões e até agora nem varrer a praça foi capaz. (aliás, se eu fosse de qualquer um desses teatros, aconselharia a abrirem os olhos e ouvidos pois, para crescer em cinco vezes de tamanho, o tal Centro, se não for crescer pra cima, só tem a opção de passar o trator por cima de quem estiver na frente, digo, atrás, como é o caso).
 
Impressionante que a política cultural praticada pela atual gestão esteja tão empenhada em ajudar um único teatro (fico triste pelo incêndio, mas minhas lágrimas estão voltadas para causas mais abrangentes, agora lágrimas de indignação) e pretenda, por outro lado, excluir, através do Projeto de Lei 671/07, do Plano Diretor Estratégico, os artigos 17 ao 53, que dizem respeito justamente, entre outras áreas fundamentais, às áreas culturais, de recreação e lazer. Quem quiser, informe-se no site WWW.cooperativadeteatro.com.br, sobre manifestação ocorrida no dia 13 de março, por ocasião da audiência pública na Câmara Municipal para examinar a constitucionalidade desse projeto de Lei.
 
Impressionante que a classe artística de São Paulo organize-se e brigue por leis de fomento públicas mais substanciosas há mais de dez anos, sobrevivendo aos trancos e barrancos e fazendo o milagre da multiplicação dos tostões para apresentar à população não só obras de arte de qualidade, mas também trazer essa população para uma participação ativa dessas mesmas obras, orientando, formando, ensinando, empregando... sem que esses números impressionantes... impressionem ou sensibilizem nossa tão sensível gestão municipal, que semestre após semestre ameaça cortar drasticamente o montante de seus mecanismos de fomento (senhor prefeito, vá consultar quantas pessoas a Lei de Fomento ao Teatro, bem como a da Dança, já beneficiou direta e indiretamente, e veja que daria para encher seu tão amado novo Cultura Artística por bem mais de uma centena de vezes).
 
Nesse momento, não represento grupo nenhum, não sou porta-voz de nenhuma organização. Mas sou artista e cidadã, e sinto-me na obrigação de expressar minha sincera indignação pelo absurdo da situação promovida por nosso digníssimo prefeito. E faço aqui uma sugestão, leve a sério quem achar pertinente: que os artistas de São Paulo marchem em coro e reúnam-se em frente à casa do Sr. Prefeito e abram o berreiro por umas cinco horas pelo menos, todos juntos, fazendo um legítimo Dia do Choro, banhando de lágrimas a fachada de sua residência, para ver se o Sr. Prefeito se comove sinceramente conosco como se comoveu na ocasião do incêndio (pois botar fogo em nossos teatros seria um pouco demais...). E faça algo de fato pela cultura, e não somente pelo Cultura.
 
Daniela Carmona
Atriz

Escrito por Sérgio Salvia Coelho às 19h22
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

15/02/2009


Disseram que eu voltei encubado...

Daqui a pouco falo das minhas férias, no Rio e em Cuba.

Por enquanto, para não dizer que não falei de flores:

http://www.youtube.com/watch?v=vJglkwh05yI&feature=related

 

Esto no puede ser no mas que una cancion
Quisiera fuera una declaracion de amor
Romantica sin reparar en formas tales
Que ponga freno a lo que siento ahora a raudales
Te amo
Te amo
Eternamente te amo
Si me faltaras no voy a morirme
Si he de morir quiero que sea contigo
Mi soledad se siente acompañada
Por eso a veces se que necesito
Tu mano
Tu mano
Eternamente tu mano
Cuando te vi sabia que era cierto
Este temor de hallarme descubierto
Tu me desnudas con siete razones
Me abres el pecho siempre que me colmas
De amores
De amores
Eternamente de amores
Si alguna vez me siento derrotado
Renuncio a ver el sol cada mañana
Rezando el credo que me has enseñado
Miro tu cara y digo en la ventana
Tatiana
Tatiana
Eternamente Tatiana
Tatiana
Eternamente Tatiana
Eternamente Tatiana

 

Gracias, compay Pablo Milanes

Escrito por Sérgio Salvia Coelho às 17h53
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

31/01/2009


O Pacto de Parati

 

Parati, 1º de janeiro de 2009. Uma gaivota faz um ângulo brusco e mergulha no mar: pressentiu o peixe. De onde estou não consigo ver se o pegou ou não. Não importa. Fez seu ofício de gaivota, como diz Camus.

As gaivotas são felizes? Sabem que são felizes? São felizes o tempo todo ou só em momentos como esse, de saciedade vislumbrada? Um pássaro na gaiola é um bom exemplo de infelicidade, sendo uma natureza contrariada. Mas um pássaro em vôo é a garantia de que?

Quando Noé soltou a pomba e ela não voltou à arca, foi o sinal que a normalidade havia voltado ao mundo. Picasso transformou isso no símbolo da paz, não da felicidade. Paz é o direito a uma vida sem surpresas. Uma vida sem surpresas nunca é vista como feliz. A felicidade só se reconhece na expectativa e na lembrança.

Na virada do ano há uma avidez pelo instante fugaz de felicidade, que escorrega das mãos como um peixe. Acumulam-se armadilhas tradicionais, como contagens regressivas em uníssono, para fogos de artifício riscando o céu a fogo como cometas domesticados. Na Áustria, joga-se chumbo quente no copo d’água, e o acaso plasmado vira talismã. Há o mesmo ritual nas fotos de ano novo: é preciso sorrir no presente para que no futuro o instante fixado vire nostálgica prova de que fui feliz. A felicidade, assim, é uma pipa no ar: fisgada do distante a ser controlado no vento aleatório.

Mas que sujeito chato sou eu, que vê a busca da felicidade no lugar do seu fruir espontâneo, e que só o encontra em fotos não posadas, como se fosse impossível ser feliz e saber que se é feliz. É primeiro do ano, dia da paz universal, e constranjo e inquieto os amigos com minha melancolia.

Caros amigos, peço perdão pelo isolamento, e garanto que ele não é ostentação hostil da minha inadequação ao esforço coletivo em ser feliz (penso mesmo que a melancolia é justamente a forma mais refinada da felicidade). Honra-me ter começado esse ano merecendo o amor paciente da Tatiana, e compartilhando o presente espontâneo de Ivam, Rodolfo, Phedra, Cléo, Penna, João, Érika, Beto, e dias depois Natália, Carla, Thales, e todo o grupo Armazém.

É que, nos últimos oito anos, no exercício da crítica, responsável por fixar momentos de risco e exposição dos palcos, recebi risos posados e caretas demais, meio adulado, meio menosprezado, e me habituei a me refugiar por trás de meus olhos, como se eu fosse invisível.

Porém, a partir deste ano, estou livre. Já que o que escrevo agora não é mais editado e vendido impresso, não represento mais nada além do meu nome: sou uma testemunha a mais. Continuo porém por teimosia e vício a compartilhar o que vejo, agora despreocupado de qualquer valor de mercado. Saio da moita e surjo às claras. Por amor às epifanias instantâneas, esse peixe esperado que nos mantém no ar e na vida, tentarei ser mais visível. E, quem sabe, feliz.

Aproveito assim que não acabou ainda janeiro para fazer um pacto com a felicidade. Passo a considerá-la não como uma sorte que se merece distraído, mas como uma criação pessoal e cotidiana, delicada (e por isso tendo que ser bem tratada), que se compartilha com os amigos como um vinho. Como a vida.    

 

PS: Este texto foi enviado pelo Sérgio, de Cuba, hoje, para o meu email. Ele pediu que eu publicasse. Está aí...! Tatiana

Escrito por Sérgio Salvia Coelho às 19h01
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]

09/01/2009


Só escrevo o impublicável.

Escrito por Sérgio Salvia Coelho às 11h25
[ ] [ envie esta mensagem ] [ ]
 

Histórico